Oh senhor assessor, mais um comunicado, se faz favor!

Estou a gostar cada vez mais da forma como o governo está a preocupar-se com as populações (na verdade, digo isso só para ver se é desta vez que os meus leitores se sentem felizes por eu elogiar o seu governo). O governo está ultimamente muito empenhado em solidarizar-se com os cidadãos que perdem os seus familiares nos acidentes que poderiam ser evitados. Faz isso, maioritariamente, por vias de comunicados de imprensa. Para mim, tudo bem. Compreendo que, com os constantes decretos de estado de emergência e/ou de calamidade, não é possível que os políticos se desloquem para as regiões, setores e tabancas. Devem apenas ficar em Bissau, onde se resume o país, para, semanalmente, receberem visitas dos políticos dos países “amigos”, vendendo-lhes a imagem de um país em vias de recuperação, fazendo jantares e mais algumas coisas que são, convenhamos, prioritárias.

No passado dia 23, houve acidente de viação na tabanca de Cambessé, setor de Xitole, em Bafatá, tendo causado 12 feridos e 15 mortes, segundo se noticiou na Radio Bantaba. Pelas imagens que correm nas redes sociais, as pessoas feridas ou mortas são, na sua maioria, jovens. Uma grande perda para aquela tabanca e, igualmente, para o país. No dia seguinte, os ministros de interior, dos Transportes e da Administração Territorial e Poder Local, Botche Candé, Augusto Gomes e Fernando Dias, respetivamente, foram lá dizer que “foi com dor e consternação que as autoridades receberam a triste notícia”. No seu posterior comunicado, o conselho de ministros deliberou 1) instruir os ministros acima referidos para “criar uma comissão de inquérito para averiguar as circunstâncias do sucedido e apurar as eventuais responsabilidades”, 2) solicita o Ministério Público para “abrir um competente processo criminal” e 3) “declara luto nacional”, incluindo, para isso, as mortes resultantes do naufrágio de uma piroga no passado dia 18.

A minha preocupação não é se o governo deve ou não decretar luto nacional, até porque os guineenses lutam diariamente, nem é sobre o inquérito e o processo solicitados. Desses, todos nós sabemos, a semelhança de mil e um outros inquéritos e processos, não saberemos dos resultados, infelizmente. A minha preocupação é sobre o quê que o governo, se fosse mesmo governo, poderia ter feito para evitar que essas tragédias acontecessem. Mas sei que, em geral, os guineenses se interessam mais pelos resultados e não pelas causas desses. Ninguém prevê nada. Parece haver prazer em produzir comunicados, depois de as coisas acontecerem, para repudiar ou lamentar isso mais aquilo. É preciso, por isso, adiantar-vos algumas ignorantes questões, caros leitores: o quê que os acidentes marítimos e de viação têm a ver com um bom ou mau governo? O governo é culpado por alguém, por uma ou outra razão, ter matado outras pessoas? No caso do mar, não seria ridículo culpar o governo? Não, uma coisa não tem nada a ver com outra, já que, no nosso país, o governo não tem sido “órgão executivo e administrativo supremo da República”, como manda o artigo 96 da Constituição.

Além do que até aqui falamos, caros leitores, há ainda mais outra situação agravante. No dia 27, após a sua reunião ordinária de quintas-feiras, o Conselho dos ministros fez um comunicado em que se dava conta do “calendário reajustado do Ano Letivo 2020/2021, compreendendo 146 dias”. Isso é divertido, mas também poderá ser o prenúncio de uma morte, também ela divertida, do país. Vejamos. No nosso sistema de educação, salvo o facto de eu ser leigo da matéria, um ano letivo tem mais ou menos 9 meses. 270 dias mais ou menos. Mas, o governo ora “remodelado” ou “reajustado”, faz tudo para que seja “reajustado” um ano letivo que, além das justas exigências dos sindicatos, pedagogicamente não tem condições para ser “concluído”, porque sequer se iniciou de verdade. É simplesmente impressionante o rumo que o país está a tomar. O Sissoco, o homem “mais bonito” que tem “direito a ter várias mulheres”, foi mesmo esperto ao amartelar o MADEM, seu partido. Era preciso reajustar o seu próprio governo (porque é ele quem tem a maioria no parlamento, como disse na folclórica entrevista da TGB) para, depois, reajustar o ano letivo. As dúvidas que persistem são: em que escolas serão dadas essas aulas de 146 dias, nessa época de chuva? Com que professores contar, se a greve ainda permite durar? Ou será feito o recurso a requisição civil, como se murmurou há dias? (Não vou comentar nada sobre a maioria que o Sissoco disse ter).

Justamente porque o Sissoco e o seu governo ignoram os reais problemas do país (greve geral na Função Públicas há mais de cinco meses, ainda com um novo pré-aviso para o mês de junho, paralisando o tão fraco ensino e afetando o miserável setor de saúde que temos) e dão-se mais ao trabalho de fazer e receber visitas, desperdiçando os nossos recursos, também vou ignorar que houve uma “conferência de quadros de MADEG-G15”. Vou acreditar que o que houve foi uma chantagem. E vou dedicar-lhe apenas este parágrafo. Como disseram, faz-se a política para ganhar e para os militantes do seu partido não sofrerem, uma vez que deve ser eles a beneficiar das “pastas”. É o que têm feito. Vou fingir que não ouvi nada disso, sabendo que, ao longo dos anos, o que mudou não foi e não é o regime, mas sim as pessoas que, para o seu benefício, procuram a todo o custo fazer a manutenção do regime corrupto e corruptor, um regime que fustiga a vida dos guineenses mais empobrecidos. É o que há pouco chamaram de “remodelação”. Não há alternância, na verdade. O que há é uma divisão e multiplicação do mal que nos tem guiado até hoje. Assim fica produzido este breve comunicado, com mais compromisso e solidariedade para com os concidadãos de Leste e de Ilhas, para com o corajoso António Pereira e três outros jovens seus que foram detidos porque estavam numa vigília no Ministério de Educação contra a greve, sem esquecer dos professores cujos salários lhes é cortado e o povo em geral que tem a infelicidade de ter deputados que nem estão aí para o povo, senão para as suas famílias.

Oralio Romen, o cronista da República de concreto

Porto, 29/05/2021

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