NOS TRILHOS DO PENSAMENTO DICOTÔMICO POLÍTICO GUINEENSE: PAIGCISMO E ANTIPAIGCISMO

O debate (e práxis) político em Guiné-Bissau tem sido ultimamente marcado por crescente e radical dicotomização entre atores políticos, seus defensores e a população em geral. Os debates ocorrem em diferentes meios, contudo, é no parlamento que esta dicotomia se apresenta de forma mais clara, facto que constitui um perigo para o país. A dicotomia centra-se no Paigcismo e antipaigcismo. Este pensamento bipartido consiste meramente em crucificar, entre si, o/os adversário/os político/os, apontando dedo aos culpados do nosso mal-estar, ou aos que representam ameaça ao desenvolvimento. A finalidade do jogo é tornar o outro o nosso lobo (política de lobonização), lobo do povo guineense, que merece ser combatido o tempo todo, pois, a tomada de (ou a continuidade no) poder de nosso adversário representa um perigo, não só para nós, como também para população em geral, envolvendo assim quase toda população no jogo. Logo, legitima-se a política maquiavélica. Todas a nossas ações, boas ou más, são benvindas, uma vez que nos afastam do perigo do nosso lobo. Assim, todo debate fica morto em tentar convencer quem é/são realmente nosso lobo/lobos.

A minha posição perante este debate é clara: o paigcismo e o antipaicismo constituem uma grossa distração para impedir o entendimento do miolo do problema político de forma mais profunda. Para mim, o cerne do problema é a hegemonia-do-campo-político, isto é, Kampu nunde ku bu pudi safa mas-rapidu bu mistida, e que nenhuma ou pouca formação política está interessada em desmantelar. Sem embargo, a política torna-se um bolo precioso sem dono em cima da mesa, onde todo mundo se arranca para sua partilha. No instante, é-nos feito um campo de batalha ferrenha, um campo hegemônico. E os ditos dois lados dicotômicos representam atualmente os maiores concorrentes a ganhar maior fatia, entre toda população guineense.

Não obstante, os políticos, em larga medida, não se discordam na matéria de manutenção dessa hegemonia, mas em quem deve ficar com ela. A política de lobonização-adversaria se deve exatamente a isso. – Ganho maior fatia de bolo e coloco-a no meu regaço, começo a reprimir qualquer um que ameaça-me tirar nem sequer um pedacinho. O lobo é qualquer um do outro lado que pretende dividir a fatia comigo.

Paigcismo/Antipaigcismo – práxis e consequências

Aproveito ainda tornar mais claro de que, quando falo de paigcismo/antipaigcismo não estou a referir somente seus apologistas políticos, mas sim, todo seu binarismo que afeta a nossa sociedade. Para saber disso, basta acompanhar as declarações e comentários sobre assuntos políticos nas redes sociais, é um labirinto de defesa e de lobonização de um ao outro lado, o que constitui, como havíamos dito, uma perigosa distração daquilo que consideramos como problema fundamental da nossa política, hegemonia da política.

Dantes, si ka PAIGC, i PRS. Hoje, si ka paigcismo i antipaigcismo. Isto representa um sinal de transformação na nossa política. Lembra-se que desde início da nossa democracia já existia o sentimento anti-PAIGC, mas não se podia falar de antipaicismo como no momento atual. Pois, a dicotomia atual tem outras características diferentes. Uma delas, tanto PAIGC quanto PRS não dependiam tanto de alianças como agora.

Vamos lá. Atualmente, muito embora MADEM G15 representa um dos mais forte do lado dicotômico, não dá para reduzir a dicotomia entre PAIGC/MADEM. A presente dicotomia, além de ampla, é mais fluída e dinâmica, que pode ser muito bem reduzida no paigcismo/antipaicsimo. No lado do paigcismo, além dos políticos de PAIGC, encontramos políticos de outros partidos. No lado do antipaigcismo, além de MADEM e PRS podemos ver ainda políticos ou militantes do PAIGC e das outras formações políticas, que também alguns dos seus membros aliam ao PAIGC. E esta dicotomia é recente, podemos localizar suas raízes a partir das eleições gerais de 2014 com a sua total consolidação na última eleição presidencial. Essa dinâmica tão confusa que vem historicamente de constante transformação política que, apesar de importante para arranjos de novas práxis política, nunca mexe com o cerne do problema. O problema, para djintons, parece não está na hegemonização da política, mas sim no lado dicotômico.

Paigcismo. PAIGC representa um elemento essencial para entender a trajetória política guineense. Não é por acaso que constitui a base da dicotomia atual. Há muito tempo tem reclamado e aproveitado do seu pioneirismo histórico para manter no poder, porém sem jamais corresponder com as aspirações do povo. 1) Através do seu pensamento histórico totalitário, fala-se, frequentemente que PAIGC é um partido histórico e de Amílcar Cabral, que trouxe a liberdade ao povo guineense e que, portanto, tem direito de governar. O totalitarismo está nesta pergunta: Por que não votar para quem trouxe a independência? Esquece que a luta pela liberdade humana é um processo continuo, e que próprios combatentes não nos trouxeram a independência para nos entregar a um novo aprisionismo de PAIGC ou de qualquer formação política. Talvez diríamos se o próprio Cabral ressuscitasse, fundaria outro partido, porque o seu partido que trouxe a liberdade levou o povo para uma gaiola. Achamos que todo mundo orgulha e deve orgulhar do feito histórico do PAIGC-antigo (de Cabral), porém isso não deve ser motivo de continuidade no poder do PAIGC-novo. O contexto já é outro. Cumprir com o projeto maior, desenvolvimento e a continua liberdade, deve ser pauta de embate para acessar o poder. Para nós, o valor lendário do PAIGC de Cabral já deve ir ao museu (físico ou mental), servindo da lembrança, de estudos e de reflexão do nosso passado, não de justificativa para acessar o poder. 2) O paigcismo está muito convencido de que o único que pode desenvolver a Guiné-Bissau é ele. O outro lado para ele é uma tchaflaka. Reclama intelectualismo, e toma isso em certa medida, consciente ou inconscientemente, como política de lobonização. Intelectualismo, apesar de importante para reconstrução da nossa política (e não o condenamos como pretendem algumas tendências lobistas antipaigcistas), porém o problema não resume aqui. Quando uma vez na ANP, os seus deputados e de outros partidos (ao invés de lutarem para eliminar ganhos absurdos no aparelho de Estado) reclamaram aumento de seus salários e mordomias, ficamos ainda mais convencidos de que o problema está muito além do intelectualismo ou de quaisquer novos arranjos políticos. O fetichismo histórico da hegemonia-política é o que bala a mente partidária. E esta mente se acoberta na lobonização do lado oposto.

Antipaicismo está também profundamente afogado na convicção de que o PAIGC representa o maior mal da Guiné-Bissau, pois fez 47 anos no poder sem fazer nada, e que o seu afastamento no poder, por si só, resolveria todo problema. De acordo com este pensamento, nunca o país poderá se desenvolver com o PAIGC no poder. O mais questionável é que o antipaigcismo tem muitos membros que há muitos anos eram do PAIGC, onde eles mesmos contribuíram de grosso modo a criar o mal a este partido, e que agora, sem lavar a mente-hegemonica, proclamam a lobonização contra o seu antigo partido. O mito dos 40-e-tal anos no poder do paigc está na moda neste lado. É o seu principal elemento de lobonização-adversaria. Ora, o PRS ou o recente antipaigcismo nunca questionam os ganhos absurdos que vão herdar ou herdam do PAIGC no poder. Já temos vários governos que não são liderados pelo PAIGC, sejam eles de transição ou de unidade nacional, ou de PRS, e não vimos nenhuma reforma ou impulso de práxis efetiva para desegemonização-política. E também nem testemunhamos ainda a façanha de um partido de oposição que, com toda sua estrutura, principalmente seus deputados, esteja decididamente a usar seu calor para desegemonizar a política.

Disso, acabamos por concluir que são todos partidos responsáveis pela hegemonização-política, principalmente os que já têm acentos parlamentares. Pois o poder é dialético, não só entre político e seu povo, mas entre os próprios adversários políticos. Se houvesse uma forte pressão para total negação da hegemonização política por parte de opositores, talvez estaríamos em outra situação, talvez melhor. Na verdade, os opositores e o recente antipaigcismo reclamam a mera substituição do PAIGC/paigcismo, não de erradicação da hegemonia política.

O que fazer?

  1. É preciso fazer uma republica popular;
  2. Romper com hegemonia política é um dos primeiros passos para fazer uma republica popular. O paigcismo/antipaigcismo nos está desviando disso. hoje, por exemplo, se você criticar para o bem de país, se o paigcismo está no poder, você é visto logo-logo como defensor do lado oposto, e vice-versa. Com efeito, a mudança que a sua crítica podia trazer é rebatido, a hegemonização continua;
  3. Simples discursos e novos arranjos políticos, apesar de importantes, não serão suficientes para melhorar o nosso campo político, pois pode contribuir ainda na manutenção de apropriação de bens de forma injusta por parte de classe política. Sem desegemonização do campo político, mesmo com avanços econômicos, tecnológicos, urbanos, etc, teremos ainda uma sociedade mais injusta. E o campo político continuará a ferver com tendencias às instabilidades;
  4. Além de eliminar a hegemonia política, a Guiné-Bissau precisa efetivamente programar o trabalho, principalmente agrícola, para dinamizar a sua economia e garantir a suficiência alimentar, pois boa parte da sua população depende da agricultura; nossos vencimentos devem ser calculados de acordo do que somos capazes de produzir. Já não deve ser através de dívidas externas. É através desse cálculo errado de ambição que os políticos se incumbem de atribuir a si mesmos absurdos vencimentos, sem proporcionar produções que lhes garantam economia para isto, com efeito, cria desigualdade de distribuição dos bens nacionais. Feito isso, as dívidas externas talvez serviriam mais para construções das estradas, universidades, hospitais, etc. não para pagamentos de salários ou subsídios, que boa parte cabe ao bolso dos políticos;
  5. Chamo também atenção aos jovens. Defender um político ou uma formação política, ou ainda entrar na política, não é nada mau, até porque o campo político precisa de inserção dos jovens. Mas que seus embates políticos, dentro ou fora de partido, não contribuem para manutenção da hegemonia política. Desejo que a desegenominação-política, a elevação de trabalho/produção/distribuição-equitativa, investimento público, enfim, a formação de uma republica popular seja confronto de jovens políticos guineenses.

Por: Heuler Costa Cabral

Mestrando Interdisciplinar em Humanidades – MIH/UNILAB

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