[CRÔNICA] Uma questão de prioridade

Julgo que os meus “caros jurados” leitores – 20 e 201 – terão ouvido várias vezes dizer que, na vida, tudo é uma questão de prioridade. Senão, fiquem a saber: na vida, tudo é uma questão de prioridade. O exemplo disso, é o que o ministro de Estado e do Interior Botche Cande disse, num áudio posto a circular, na sexta-feira dia 11: mandou os seus filhos a Portugal (também estou em Portugal, bolseiro, mediante a um concurso público!) e hoje já estão a ser doutores e que, contrariamente a ele, sabem perfeitamente o português – justificando o seu discurso do dia 06 que – não falemos da língua, é sabido há muito que Botche não sabe falar português – é pobre em termos do conteúdo. Botche ainda disse que se as pessoas se preocupam com ele, é porque ele é “bom” – politicamente, entenda-se. Mas, permitam-me desmenti-lo por uma questão de prioridade, é o contrário do que ele pensa: preocupamos com o facto de termos tido um ministro (ou deputado, quando o Sissoco quer) analfabeto, tal como os seus camaradas.

Ignorando todos os acontecimentos anteriores ao dia 06 deste mês, podemos notar que: no dia 06, houve cerimónia de “Juramento à Bandeira Nacional da 14ª Incorporação” dos “novos soldados” que se juntaram às forças de defesa e segurança. Recuso-me a falar da sua ilegalidade. Já me habituei, além de não é prioritário para mim…

De regresso a Bissau, depois de participar do “Fórum Económico Rússia-África”, na sexta-feira, o primeiro-ministro Nuno Nabiam disse que a Rússia pretende trabalhar com o nosso país, sobretudo na exploração dos nossos recursos minerais – bauxite, fosfato, petróleo, etc., e, igualmente, desenvolver uma cooperação na área militar. Depois dessa declaração, fingi que queria ouvi-lo pronunciar-se sobre as greves que decorrem na Função Pública já há mais de cinco meses, com mais um ano letivo a fundar-se. Sou do tipo que, sabendo o posicionamento de certas pessoas, espera sempre que consigam simular preocupações. Era a única solução. Se ter escolas a funcionarem não é prioridade para este governo, ao menos sabe o que quer para si: enriquecer, ainda que ilicitamente! Quem é que nega isso? Lembrem-se de que ser “considerado a pessoa mais rica da Guiné-Bissau” é o que colocou Carlos Gomes Júnior na lista de “100 personalidades mais influentes da África Lusófona”. Parênteses: influência é influência, como dizia alguém hoje. Até o Sissoco podia fazer parte desta lista. Atualmente, é a pessoa mais influente do nosso país: manda chamar a presidente em exercício da ANP e essa suspende as sessões paralámentares (o que é melhor até, já que passam o tempo lá a discutir as suas vidas pessoais e a insultarem-se) todos os ministros e a nova maioria parlamentar fazem referência a ele nos seus discursos, as forças de defesa e segurança lhe devem respeito e não às leis, já deixou recomendações aos juízes e tudo mais…

Por uma questão de prioridade na segurança – dizem eles – o governo mudou a gama dos passaportes, passado a existir passaportes especiais para – nota-se – cidadãos especiais. Pouco depois, é noticiada a “falsificação e venda de passaportes diplomáticos da Guiné-Bissau em Paris”, e a Direção Geral dos Assuntos Jurídicos e Consulares, na sua nota à imprensa de 09 de junho, elegeu como prioridade informar que: “o caso concreto remonta ao ano 2017”, pelo que “não sucedeu durante o exercício deste Governo”. Digam ao senhor DG Cândido Barbosa que quem era ministro de Neg. Estrangeiros em 2017 foi Jorge Malú, num governo liderando pelo Sissoco, atual pres. da República. Se isso não vos diz alguma coisa, sigamos…

Seguindo a lógica de prioridades, o ministro da Administração Pública Tomane Baldé, no programa Tem a Palavra da RTP, quando perguntado se o governo pretende aumentar o salário mínimo, como justamente exige a UNTG, afirmou o seguinte: “eu estarei em condições de amentar mais (o salário), se os trabalhadores aumentarem a produtividade”. Sendo que o ministério é dele, tem toda a razão. Além disso, é claro que uma pessoa, ainda que possa, não deve exigir um bom salário e querer trabalhar pouco, sobretudo porque não é ministro, nem deputado, que fará presidente da República – esses, sim, podem, como é hábito, não trabalhar e receber mil vezes mais que os professores, médicos, enfermeiros, etc.

Todas essas “prioridades” permitem-nos concluir que: 1) se menosprezou as greves na Função Pública, achando que são de “instrução alheia” como se lê na página do Sissoco; 2) ao mesmo tempo que se bloqueiam os salários dos grevistas, recruta-se os jovens para garantir a segurança do Sissoco e os seus, aterrorizando a população cada vez mais. Sendo exatamente essa a prioridade deles, militarizar a sociedade, chega-se ao momento em que todos, independentemente de se seguir as leis, serão polícias ou militares, como forma de se fugir das greves nos outros setores, ainda que também a probabilidade de receber os salários seja pouca. Mas recomendo, que é mesmo bom o espírito de submissão ao único chefe. Só não entendo: sendo a Guiné-Bissau pacifica, porquê que se fala mais em investir nas Forças de Defesa e Segurança do que em Sistemas de Ensino, Saúde e Justiça bem estruturadas e capazes de responder aos anseios dos guineenses?

Oralio Romen, o cronista da República de concreto

Lisboa, 13/06/2021

Share via
Copy link
Powered by Social Snap