CRÔNICA: Hoje é 16 de fevereiro, e depois?

Em princípio, sei que todos sabem que dia é hoje: 16 de fevereiro. Mas faço questão de o dizer, talvez por uma simples razão de, ainda que desnecessária, passar uma certa informação. Isto segue, conscientemente, a tradição de informar sobre as coisas que, não sendo vitais, nos despertam um certo interesse. Mas não só. O interesse, não poucas vezes, depende do grau de acesso a informação que se tem, diria alguém; ou do próprio interesse em interessar-se por uma situação. É uma questão de escolha! E um dos exemplos disso é alguém dizer que esteve infetado por COVID-19, há quase um ano, provocando-lhe “AVC pulmonar”; ainda que a sua condição de ser verdade seja pouquíssima… Mas aqui o caso é particularmente interessante, e lá está o meu grau de interesse a pesar. Ou, talvez, porque se trata de quem se diz único CHEFE da Guiné-Bissau. (Duma forma crítica e resumida, Magno da Costa falou disso, da seguinte maneira: AVC = Acidente Vascular Cerebral, então, o cérebro do Sissoco encontra-se nos pulmões. Aiii!). E eu, que não percebo nada dessas coisas, não podia discordar de nenhum deles. O Sissoco tem direito de dizer o que quer dizer, pondo ou não em causa o seu caráter, e o Magno também tem o direito de tirar as suas conclusões. Até o próprio Sissoco já dizia: n’terpretal manera ku bu misti!” Tal direito é extensível ao bastonário da Ordem dos Advogados, Basílio Sanca, que diz que “a Rádio Capital está ao serviço dos partidos políticos”. Não importa, segundo esta lógica, o grau da veracidade dos factos. O importante é, e apenas, o interesse que se tem…

Os “dizeres” do Sissoco, ao voltar da “última” “consulta médica” em Dakar, não são o assunto que me interessa aqui. (Nota: última, não sei se é; porque, como sabemos, Sissoco tem um dom particular de viajar, podendo ter feito já outra viagem nas últimas 24 horas.) Interessa-me é, de facto… 16 de fevereiro. Contudo, não poderia deixar de referir-me ao grande viajante, que terá feito, segundo se noticiou, acerca de 50 viagens, em um pouco mais ou menos de um ano, pese embora o erário público.

Por coincidência ou não, hoje, na minha primeira aula da História do Teatro Português, quando perguntado sobre as expectativas sobre a cadeira, respondi: gosto de palavras. Então, julgo, não há nada a que eu possa ter em atenção senão as palavras que ouço, vejo e leio quotidianamente, ainda que tenha pouco jeito em usá-las. Sejam ditas ou escritas por quem quer que seja!

Registadas estas primeiras observações, permitam-me falar do que queria falar: o dia dos namorados! É paradoxal, não é? Depende… e eis o elemento que vos possa ser útil:  isto é escrito por um solteiro. E devem estar a pensar: “poxas, como é que um indivíduo que não está a namorar pode falar do dia dos namorados?”, ou, “ah, tudo o que ele diga não passa de simples dizer de alguém que fala da experiência que nunca teve”. Podem ter razão, ou não… mas o certo é que nem sempre um jogador percebe melhor do futebol que um treinador, um não jogador, ou um simples adepto, por exemplo. Encaixo-me numa dessas classes. E mais: dizer que só fala de casamento quem é ou foi casado, não seria igual dizer que só fala da política quem é político, pondo de lado o argumento de que somos todos políticos?; ou, sei lá, só fala de discriminação quem é ou já foi discriminado? Tem coisas de que podemos falar, bastando colocarmo-nos no “lugar do outro”, ou como um observador que se interessa por uma determinada questão em particular.

Devo reconhecer, porém, que sou leigo nessa matéria; como dizem os juristas da nossa praça, quando se sentem incomodados com determinadas posições das pessoas que querem exercer a sua cidadania ativa. Eu, enquanto observador, só podia dar opinião sobre o dia dos namorados depois de observar os factos. E esses factos são observados geralmente  através das redes sociais, que são o centro de exposição dos casos como esse. Mas antes, fica a justificação desta minha posição: observar, analisar e formular “teorias”.

O dia 14 de fevereiro foi mormente interessante por vários motivos. Desde logo porque houve vários programas, de caráter humorístico ou não, nos quais se falou de como é o dia dos namorados na Guiné-Bissau e nas europas; do que se faz; do que se dá; ou do que se esperaria que se faça ou que se dê. Dou ênfase ao do Prince Rapha GB (Especial 14 de fevereiro). São discutíveis algumas coisas que se disse nesse programa. Mas aqui não. Houve mais de que isso, e é o centro desta observação: o “meu” Facebook transbordou-se de fotos e frases (muitas “roubadas”…), acompanhadas de “músicas românticas”. Não tenho nada contra e nem podia ter. Seria ingénuo da minha parte! Se no dia das mulheres, dia dos pais, dia de… publicam-se fotos, vídeos e tudo mais, a falar de como se ama, porque não o mesmo no dia dos namorados? Cada dia pode ser como qualquer um, mas há dia que, por convenção ou não, nos é particular e, por isso, nos chama a especial atenção; dependendo do que se pensa, se diz ou se faz nesse dia.

Apetece-me instalar uma polémica: há quem não sabe se namora porque quer ou porque há uma rede social em que pode, de vez em quando, atualizar o seu perfil a dizer que “começou a namorar”. (E olha que isso não me diz respeito!) O fixe de tudo isso é, claro, puder no dia como anteontem ter mais facilidade… e deve ser por esta razão é que estupidamente faz perguntas do género: “então não publicas a foto da tua ou teu namorada/o? Já não andam?” Perguntas deste tipo são, no mínimo, absurdas e por várias razões. Primeiro: publicar a foto da/o namorada/o com frases do tipo “amor da minha vida/estou feliz por ter-te na minha vida” não definem o namoro. Segundo: há quem não se sinta a vontade de expor o seu relacionamento nas redes sociais. Terceiro porque trata-se de vida privada, kada kin tene si manera di iasa bentana. Então, não te diz respeito também alguém publicar ou não a foto da/o sua/seu namorada/o.

Em grosso modo, pode-se resumir o dia dos namorados (Guineenses) com as seguintes frases: feliz dia dos namorados para nós baby; pai dos meu filhos; mãe dos meus filhos; não posso viver sem você; baby onde está o meu presente?; acompanhadas de fotos e músicas como Dan Raçon, de As One, Só Tu, de C4Pedro, Você é a razão da minha felicidade, de Merlin, Sou fã nº1, do Christian e Cristiano, ou, para quem mesmo quer “impressionar”, Reine, de Dadju, I find the love, de Ed Sheeren… Particularmente, não usaria, se calhar, nenhuma destas frases. Declamaria, porventura, o poema Amor é fogo que arde sem se ver, de Camões, ou Mulher da Guiné, de T. Tcheka… Mas isso é talvez porque  (ainda?) não existe alguém que possa ser “razão da minha felicidade”, e cuja falta me faça não poder viver. Fora isso, nada a reclamar. Que se publicasse mil e umas coisas é-me indiferente! Estaria apenas a observar, como fiz.

Ora, devo notar que também houve quem não publicou nem foto, nem frase, não porque não namora ou não sinta a vontade de expor o seu relacionamento, mas porque teme que as suas relações se estraguem depois do dia 14. Por curioso que pareça, li várias publicações em que se dizia: “tu que tens damas que te oferecem dinheiro não estraga os teus relacionamentos por causa de 14. Não adianta publicar foto da tua legal, se tens uma outra que te banque.” Para as mulheres, idem. Mas isso aconteceu mais com os homens, claro. Houve quem me apresentou namorada e que ontem me disse não poder “postar” uma única foto dessa, para que a(s) “esquema(s)”  não visse(m)… mas esperou, contudo, que a “legal” postasse a sua foto. Outra estratégia utilizada foi de “ocultar” estados a certas pessoas… para que fosse o tal rapaz ou a tal rapariga a vê-los. Isso é duma extremada astúcia! Muita hipocrisia, preponderância…

Posto isto, estou em condição de responder à pergunta que serve do título deste texto: hoje é 16 de fevereiro, e depois? Depois de tanta hipocrisia, desonestidade e tudo mais, vai-se continuar na mesma história: cada rapaz ou rapariga, não raros casos, continua com dois/duas ou mais “namorada(o)s”; rapazes continuarão a agredir as suas namoradas, por acharem que não devem ser traídos, enquanto são quem mais trai… enquanto isso acontece, vamos esperar o próximo 14 de fevereiro, para se voltar a extravasar as redes sociais com as fotos dos namorados que agridem e atraiçoam, sempre que lhes dá jeito. Esperemos também que os rapazes parem de se queixarem que as namoradas não dão presentes, mas esperam receber! Esperemos tudo, e com muita atenção, com muita cidadania!

E eu, como disse ontem, continuarei a treinar para o 14 de fevereiro de 2022. Com muita cidadania também, Inch’Allah!

Por: Ronaldo Mendes

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