[CRÔNICA] DIGNO DE SER QUEM SOU, MESMO A ROUBAR

As últimas semanas foram marcadas pela “defesa de honra” de diferentes tipos. Dá-se conta do agudizar das relações entre o Governo (particularmente o Ministério de Finanças) e a maior central sindical – União Nacional dos Trabalhadores da Guiné(-Bissau) (UNTG). O ministro de finanças João Fadia fez uma queixa-crime contra o secretário-geral da UNTG Júlio Mendonça, por uma questão de – adivinhem! – defesa de honra pessoal e familiar. Podia não ser o momento apropriado para discutir os antecedentes dessa polémica, mas, em defesa da minha honra pessoal (isto porque tenho prazer em discutir os males…) e em defesa da honra nacional (isto porque– parece – há prazer em fazer males), sinto-me obrigado a discuti-los. Por esta razão, aos que religiosamente esperam que se elogie, um dever se impõe: peçam, primeiro, aos governantes que tenham o sentido de Estado! Aos que se sentem preocupados com a falta do sentido de Estado dos governantes que temos, também se impõe um dever: o de se unirem em defesa da honra da honra do país, coerentemente.

Para quem não esteja a par dessa situação, resumo aqui o que aconteceu: na conferência de imprensa organizada pelos dois sindicatos ligados ao Ministério de Finanças – SINFI-GB e SDFI-GB –, Júlio Mendonça, falando da prisão de alguns líderes sindicais, afirmou que o Estado está banalizado e usa a Polícia para apreender arbitrariamente os cidadãos. Referindo-se a Fadia, Mendonça disse que um ministro de finanças deve ter preparação administrativa, ser coerente e dizer a verdade, o que não é o caso do Fadia, pois,  segundo JM, enquanto morrem pessoas nos hospitais, Fadia insiste em dizer que investiu dinheiro nos hospitais; enquanto decorrem greves em quase todos os setores, com dívidas públicas, Fadia “oferece dinheiro” sem fundamento (quem não se lembra do pagamento de mais de 3 mil milhões francos CFA ao Braima Camará e cerca de 300 milhões ao Victor Mandiga? Já que falamos do dinheiro, lembremos então que o demitido ministro de Saúde António Deuna foi detido pela Polícia Judiciária por suspeita de “desvio de 50 milhões de francos CFA de uma ONG inglesa e de concessão fraudulenta da licença de «importação ilegal» de 30 contentores de medicamentos em favor do Grupo Farmácia S.S.). JM acrescentou ainda que, além de ganhar comissões, Fadia transformou o ministério de finanças em “Empresa de Gã Fadia: manda nas Finanças e o filho na Direção Geral de Contribuições e Impostos”, tudo isso em defesa da honra familiar.

Quem não se sentiria apunhalado por essas afirmações? Foi por isso, claro, que o Fadia apresentou a referida queixa-crime. Eu, que muito acredito em aquilo que o Júlio Mendoça disse, vou dizer que Fadia fez bem em apresentar a queixa. Uma pessoa quando se sente desonrada, tem de recorrer à justiça, ainda que esta deixe muito a desejar. E, como devem perceber, estou do lado do Júlio. Só não o vou dizer publicamente por temer que se mova uma queixa-crime contra mim. Então, digo a UNTG: parabéns, continuem com as greves, pois, como disse o Júlio, é melhor parar o país agora para quando arrancar, que seja de melhor forma e com pessoas com o sentido de Estado!

Antes de se avançar, uma breve reflexão é-me obrigatório: um kota meu escreveu há dias no Facebook que, por se acostumarem tanto, os guineenses já não se enervam com os roubos e desvios de dinheiros públicos nem nada do género. Confesso que faço o mesmo, mas, na semana passada, não sei por que raio, enervei-me com as pessoas que roubaram os colchões e outras coisas no hospital regional de Gabú. Contudo, acho que se deve nutrir alguma consideração por essa gente que, em vez de roubarem os ministros que, por sua vez roubam os dinheiros públicos, tiram camas a este coitado povo. Mas, lá está, trata-se de defensa de honra de marginalidade.

Outra defesa de honra foi a do Ibraima Sory Djaló. Esse senhor, no programa Tira-Teimas da CFM, afirmou que o Partido da Renovação Social (PRS) se transformou em “lugar de roubo”, chantageando que “eles os fundadores do partido” só vão parar de reclamar se a direção lhes apresentar uma “proposta”. Convidado pelo jornalista Sumba Nasil para explicar de que tipo de proposta se trata, Sory Djaló recusou-se a falar, reafirmando de que o que disse já está dito e que tem “documentos” para o provar. Viu-se incomodado com as perguntas e despediu-se, desligando a chamada. Que tipo de proposta afinal será está? De defesa de honra fundacional ou de dinheiro?

E a polícia? Excelente como sempre. 32 pessoas foram detidas pela Polícia da Ordem Pública em Cuntuba, na região de Bafatá. Isto porque, ao invés de “cortarem” o jejum de Ramadão na quinta-feira, queriam fazer essa cerimónia na sexta-feira porque “não tinham visto a lua”. Infelizmente para elas que foram feridas e ficarão com cicatrizes. A polícia, é claro, estava a defender a honra do Estado, ainda que, teoricamente, seja laico; e esses muçulmanos estariam, como é óbvio, a defender a honra da sua religião. Já em Bolama, militares integrados à Guarda Nacional agridem uma mulher gravida de sete meses, após um desentendimento entre as partes. A mulher, vítima da defesa de honra de espancamento, tem contrações abdominais, o que o médico que a atendera considera ser resultado do espancamento.

Ainda na mesma linha de defesa de honra, lê-se na DW que o nosso único chefe, Umaro Sissoco Embalo, fez mais de 70 viagens ao exterior e menos de cinco dentro do país, alegadamente por “estados de emergência e de calamidade” que o mesmo decreta, sem antes ouvir o Paralamento. Se não é paradoxal, no mínimo é mesmo paradoxal. Mas Sissoco tem razão quando enquadra as suas viagens naquilo a que chamou de “diplomacia agressiva”. De facto, a sua diplomacia é agressiva, tanto é que, sob falsa pretensa de “resgatar a soberania e mostrar que não há pequenos Estados”, Sissoco usa desproporcionadamente o dinheiro do povo quase que semanalmente – neste caso, é uma agressão ao cofre de Estado que ele e os seus ministros fazem. Ele quer resgatar a soberania do Estado, mas a despesa desse mesmo Estado é financiado pelo exterior, com nomeações aqui e acolá… não é de resgatar a soberania que se trata, mas, sim, de defesa de honra turística”.

Sabendo que está na moda isso de queixar ou, na pior das hipóteses, mandar espancar, chamo a vossa atenção ao seguinte: se porventura quiserem apresentar uma queixa-crime contra mim, lembrem-se, primeiro, de identificar que tipo de honra é que está lesado ou, pelo menos, digam de que doenças é que padeço: estarão a seguir as linhas mestras do Sissoco que disse que a ex-ministra de Justiça Rute Monteiro tem “perturbações mentais” (reparem que o ministro de finanças já andou a copiar o Sissoco, ao dizer que Júlio Mendonça “padece de sanidade mental”). Juro que só nestas condições é que irei ao Ministério Público ou, se assim vos parecer melhor, a “cela” do Ministério de Interior de Botche Cande. Quero é defender a minha honra patológica! E mais nada.

Oralio Romen, o cronista da República de concreto

Porto, 15/05/2021

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