Foi, mesmo, Suzi Barbosa a chefiar a delegação da Guiné-Bissau na abertura da Cimeira da União Africana, um evento a decorrer até esta segunda-feira na capital etíope. A ministra demissionária dos negócios estrangeiros representa o presidente cessante, José Mário Vaz. Uma cimeira extraordinária da CEDEAO sobre o país é aguardada ao final do dia.

Os chefes de Estado da CEDEAO, Comunidade económica dos Estados da África ocidental, devem passar em revista os últimos desenvolvimentos de uma crise eleitoral, ainda sem fim à vista.

Esta semana o candidato do PAIGC às eleições presidenciais de 29 de Dezembro, Domingos Simões Pereira (DSP), voltou a apresentar um recurso junto do Supremo Tribunal de Justiça pedindo a anulação do escrutínio.

E isto por a Comissão Nacional de Eleições ter reiterado a vitória de Umaro Sissoco Embaló (USE) no pleito.

Este, após um périplo internacional por cerca de 15 países, marca presença também em Addis Abeba.

Ainda antes de se deslocar à capital etíope Embaló garantiu em Bissau que tomaria posse no próximo dia 27.

E isto mesmo se para o efeito tivesse de prescindir de Cipriano Cassamá, presidente do parlamento, como prevê, porém, a constituição, recorrendo a Nuno Nabian, segundo vice-presidente da Assembleia Nacional Popular.

USE teria garantido estar disposto a fazer a guerra para assegurar a paz, pelo que o executivo de Aristides Gomes pediu ao Ministério público que se inteirasse de tais declarações feitas em Bissau esta semana, no regresso da sua deslocação ao estrangeiro.

O certo é que o “general do povo”, como é habitualmente conhecido, rumou até Addis Abeba onde se tem desdobrado desde a sua chegada, na manhã de 8 de Fevereiro, numa roda viva de contactos com estadistas africanos, incluindo o senegalês Macky Sall e o congolês (Brazzaville) Denis Sassou Nguesso.

A CEDEAO, comunidade regional, tinha felicitado USE, com o Chefe de Estado nigerino, Mahamadou Issoufou, presidente em exercício do bloco regional, a parabenizar a 21 de Janeiro passado o candidato do MADEM-G15, qualificando-o de “presidente eleito”.

Também a União Africana (UA) chegara a convidar Embaló à sua cimeira antes de voltar atrás na sequência da manutenção do contencioso eleitoral.

A UA acabaria por convidar o presidente cessante, José Mário Vaz, cujo mandato expirou a 23 de Junho passado, mas que se mantém em funções na expectativa da tomada de posse do seu sucessor.

O facto de Suzi Barbosa granjear a obter a chefia da delegação da Guiné-Bissau ao conclave africano veio fragilizar o PAIGC, de DSP.

A chefe da diplomacia que se demitira a 24 de Janeiro passado por razões pessoais e políticas, tinha mesmo sido substituída interinamente pela ministra da justiça, Ruth Monteiro por decisão do chefe do executivo, Aristides Gomes.

Quando o presidente cessante, José Mário Vaz (Jomav), decide prescindir do convite à cimeira veio impulsionar o regresso de Suzi Barbosa à cena política.

Após ter chefiado a diplomacia de Bissau no governo do PAIGC a sua proximidade com a candidatura de USE veio dar nas vistas e, porventura, explicar o seu pedido de demissão.

No entanto Jomav conferiu-lhe plenos poderes para a conferência continental.

Porém Suzi Barbosa remete qualquer pronunciamento público das autoridades guineenses em Addis Abeba para Umaro Sissoco Embaló.

Não obstante oficialmente ele ainda não empossado na chefia do Estado, ele terá granjeado apoios políticos junto dos dirigentes africanos, incluindo da África ocidental.

Resta ver qual a postura a adoptar pela comunidade regional, da qual faz parte também o lusófono Cabo Verde.

Jorge Carlos Fonseca, Chefe de Estado cabo-verdiano, que preside actualmente a CPLP, Comunidade dos países de língua portuguesa, também já tinha felicitado por escrito Umaro Sissoco Embaló.

O estadista cabo-verdiano explicou à rfi o contexto do seu pronunciamento, antes do recurso do candidato do PAIGC e admite reconsiderar o mesmo, caso haja decisão contrária.

Jorge Carlos Fonseca admite que o ambiente na Guiné-Bissau seria “de nervosismo, de alguma tensão”, com um presidente de poderes reduzidos, ainda sem chefe de Estado empossado, “há divergências entre os os actores políticos”, pelo que “a situação não é a mais ideal”.
Por seu lado o Secretário-geral da ONU, o português António Guterres, interrogado pela rfi em Addis Abeba sobre o impasse eleitoral guineense assumiu que este assunto continuava pendente, esperando pela “decisão final”.

“O impasse e a crise política foi, naturalmente, algo que nos preocupou profundamente, que demorou muito tempo.” afirmou o antigo primeiro-ministro luso.

“A Guiné-Bissau tem atravessado crises políticas, mas tem evitado que elas se tornem num conflito armado, contrariamente ao que aconteceu em muitos outros países (…) Neste momento há um processo pendente e aguardamos serenamente os resultados deste processo para o processo eleitoral ser dado como concluído. E, por isso, as Nações Unidas não tomarão para já qualquer iniciativa esperando a decisão final”, resumiu o líder da Organização das Nações Unidas.

RFI/RADIOBANTABA